{"id":1063,"date":"2011-03-24T14:54:00","date_gmt":"2011-03-24T17:54:00","guid":{"rendered":"http:\/\/zepaiva.wordpress.com\/?p=1063"},"modified":"2011-03-24T14:54:00","modified_gmt":"2011-03-24T17:54:00","slug":"o-dna-da-paisagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zepaiva.com\/en\/o-dna-da-paisagem\/","title":{"rendered":"O DNA da paisagem"},"content":{"rendered":"<p>O\u00a0 <a href=\"http:\/\/zepaiva.wordpress.com\/livros\/\" target=\"_blank\">livro Expedi\u00e7\u00e3o Natureza Ga\u00facha<\/a> estar\u00e1 na Biblioteca do <a href=\"http:\/\/www.festfotopoa.com.br\/forum-de-livros\" target=\"_blank\">F\u00f3rum Internacional de Livros de Autor<\/a>, dentro do 5\u00ba FestFotoPoa, que acontece de 6 de abril a 1\u00ba de maio de 2011. Leia na \u00edntegra o brilhante pref\u00e1cio do livro<a href=\"http:\/\/zepaiva.wordpress.com\/livros\/\" target=\"_blank\"><\/a>, escrito pelo doutor em ecologia da paisagem, professor Rualdo Menegat:<\/p>\n<figure id=\"attachment_1102\" aria-describedby=\"caption-attachment-1102\" style=\"width: 655px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/zepaiva.com\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/expong-21-de-29.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1102\" title=\"Sitio Arqueologico de Sao Miguel Arcanjo, Missoes Jesuiticas dos Guaranis, Sao Miguel das Missoes, Rio Grande do Sul, Brasil.\" src=\"http:\/\/zepaiva.com\/wp-content\/uploads\/2011\/03\/expong-21-de-29.jpg\" alt=\"\" width=\"655\" height=\"438\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-1102\" class=\"wp-caption-text\">Sitio Arqueol\u00f3gico de S\u00e3o Miguel Arcanjo, Miss\u00f5es Jesu\u00edticas dos Guaranis<\/figcaption><\/figure>\n<p>A identidade de cada pessoa \u00e9 indissoci\u00e1vel da paisagem e do lugar onde nasceu. O lugar \u00e9 uma esp\u00e9cie de sobrenome invis\u00edvel: embora n\u00e3o conste na certid\u00e3o de nascimento, possui a mesma import\u00e2ncia do sobrenome, como se fizesse parte da natureza humana. Quando conhecemos algu\u00e9m pela primeira vez, logo perguntamos onde essa pessoa nasceu e onde vive. Tamb\u00e9m costumamos falar de sobrenomes endere\u00e7ando-os a algum lugar, como os Vargas, de S\u00e3o Borja; os Verissimo, de Cruz Alta; os Scliar, do bairro Bom Fim; os Barbosa Lessa, de Piratini; os Lopes, de Bag\u00e9. A cultura amer\u00edndia tamb\u00e9m tinha endere\u00e7o natural, como os caingangues, do Planalto Meridional; os guaranis, das Miss\u00f5es; ou os minuanos, do Pampa.<\/p>\n<p>Cada lugar tem caracter\u00edsticas t\u00e3o pr\u00f3prias que poder\u00edamos pens\u00e1-lo como se portasse uma impress\u00e3o digital ou um DNA que lhe fossem \u00fanicos. Por\u00e9m, diferentemente dos genes dos ancestrais, os \u201cgenes do lugar\u201d n\u00e3o ficam automaticamente registrados no organismo. Mas ficam impregnados, desde que nascemos, em nosso esp\u00edrito e cultura de modo indissoci\u00e1vel. Seja a l\u00edngua, o sotaque, a comida, os jogos, a religi\u00e3o, tudo est\u00e1 profundamente influenciado pela paisagem, onde a cultura vai sendo cotidianamente constru\u00edda.<\/p>\n<p>A paisagem \u00e9 a moldura de nossa cultura e, ao mesmo tempo, define os limites e possibilidades de expans\u00e3o desta. A cultura desenvolvida pelos ticunas no alto Solim\u00f5es n\u00e3o \u00e9 adequada para a vida nos Andes Centrais, pois considera fundamentalmente a paisagem da Floresta Amaz\u00f4nica. Do mesmo modo, a cultura dos incas, no Peru, forjada pela natureza in\u00f3spita das altas montanhas andinas, n\u00e3o se adapta \u00e0s terras baixas e planas do grande Pampa. Uma cultura torna-se t\u00e3o circunscrita \u00e0 paisagem que tem dificuldades de se adaptar a outros lugares. Tal restri\u00e7\u00e3o ocorre porque quando uma cultura domestica a paisagem ao longo do tempo ela ajusta os instrumentos culturais, desde habita\u00e7\u00e3o at\u00e9 vis\u00e3o de mundo, \u00e0quele lugar. O processo de domestica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 outro sen\u00e3o a transfer\u00eancia do DNA do lugar \u00e0 cultura, e vice-versa, de modo que ambos se perten\u00e7am. Isto \u00e9, ao ver a paisagem, logo identificamos o personagem que a habita, e, ao ver este, de imediato pensamos na paisagem.<\/p>\n<p>Quando a paisagem \u00e9 domesticada, passa a ser importante ingrediente de coes\u00e3o de grupos humanos. Toma parte das qualidades peculiares de um povo, integrando-lhe o car\u00e1ter, o modo de ser, como em \u201cser ga\u00facho\u201d, ou \u201cser pampiano\u201d, \u201cserrano\u201d, \u201cmissioneiro\u201d, \u201clitor\u00e2neo\u201d etc. Fazemo-nos pertencer ao lugar, \u00e0s vezes, sem mesmo conhec\u00ea-lo apropriadamente. Embora possamos n\u00e3o ter visitado todas as paisagens do Estado, dizemo-nos mesmo assim \u201cga\u00fachos\u201d, \u00e0s vezes sem nem sequer ter sa\u00eddo do lugar em que nascemos. Por for\u00e7a do h\u00e1bito, podemos enxergar para al\u00e9m da pr\u00f3pria realidade da paisagem, e a vemos mais do ponto de vista cultural que do ponto de vista da descri\u00e7\u00e3o natural, de como ela \u00e9 de fato. Como se cri\u00e1ssemos certos mitos acerca do lugar, numa esp\u00e9cie de cegueira.<\/p>\n<p>Por exemplo, com frequ\u00eancia dizemos que o Pampa ga\u00facho \u00e9 uma \u201cenorme plan\u00edcie\u201d. Com isso, queremos faz\u00ea-lo parecer semelhante ao vasto Pampa argentino, ecorregi\u00e3o que abrange cerca de 600.000 quil\u00f4metros quadrados, mais do que duas vezes a \u00e1rea do Rio Grande do Sul. O Pampa argentino \u00e9 t\u00e3o extenso e as terras t\u00e3o planas que a drenagem \u00e9 mal definida e a \u00e1gua da chuva escoa com dificuldade, acumulando-se em lagos por vezes ef\u00eameros. Originalmente, a palavra espanhola <em>pampa,<\/em> derivada do qu\u00e9chua <em>bamba, <\/em>significava apenas uma pequena plan\u00edcie nos vales intermontanos dos Andes Centrais. Quando no s\u00e9culo XVI os espanh\u00f3is avan\u00e7aram rumo ao sul e depararam com a imensid\u00e3o da paisagem de terras planas e vegetadas por gram\u00edneas, chamaram-na de \u201cgrande pampa\u201d.<\/p>\n<p>Na verdade, a \u00e1rea de terras verdadeiramente planas e baixas de nosso Estado \u00e9 muito pequena. N\u00e3o temos nem plan\u00edcies em vales intermontanos nem tampouco grandes extens\u00f5es planas. Em algumas partes, o relevo \u00e9 ondulado, com coxilhas e morros arredondados, canais fluviais sempre bem escavados; e, em outras, acidentado, com vales fluviais profundos, morros agudos, serras, escarpas e c\u00e2nions. Toda essa morfologia ocorre na metade sul do Estado, reconhecida como pampiana.<\/p>\n<p>Dito de outro modo, nosso Pampa tem paisagens muito menos mon\u00f3tonas que o cong\u00eanere argentino. Em muitos casos, a paisagem sulina \u00e9 t\u00e3o peculiar que h\u00e1 um esfor\u00e7o para n\u00e3o v\u00ea-la, apenas para fazer de conta que somos semelhantes aos vizinhos do grande Pampa. Indiscutivelmente, nossa cultura \u00e9 pampiana, o que n\u00e3o quer dizer que nossas paisagens sejam exatamente iguais \u00e0s das demais culturas pampianas dessa vasta regi\u00e3o meridional da Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>H\u00e1, na verdade, uma diversidade de ga\u00fachos na mesma medida da diversidade das paisagens onde essa cultura se instalou e se expandiu. Dizem-se ga\u00fachos os que habitam a Patag\u00f4nia, onde criam ovelhas nas zonas mais amenas desse semideserto da regi\u00e3o mais meridional e fria de nosso continente. Tamb\u00e9m se dizem ga\u00fachos os que povoam grande parte do Chaco argentino-paraguaio e at\u00e9 do Pantanal Mato-Grossense, onde criam gado e tomam mate frio, o terer\u00e9. S\u00e3o ga\u00fachos os que ocupam a \u00e1rea cont\u00edgua ao Rio Grande do Sul chamada de Campos Sulinos, no vizinho Uruguai; e, claro, s\u00e3o ga\u00fachos os que lidam com o gado e tomam mate quente, por\u00e9m em cuia pequena, na imensa plan\u00edcie argentina chamada de grande Pampa.<\/p>\n<p>Enfim, as vastas terras baixas e planas que se estendem desde a fria Patag\u00f4nia e grande Pampa at\u00e9 parte do Chaco paraguaio-argentino e respectivas \u00e1reas adjacentes um pouco mais elevadas ensejaram uma ocupa\u00e7\u00e3o humana que possui forte identidade na cultura do manejo de gado, chamada de \u201cga\u00facha\u201d. Na ampla configura\u00e7\u00e3o de nosso cen\u00e1rio, qual seja, a parte n\u00e3o andina da regi\u00e3o meridional da Am\u00e9rica, somos a por\u00e7\u00e3o do extremo oriente dessa cultura, habitando uma esp\u00e9cie de \u201c\u2018pampa alto\u201d, \u201cpampa coxilhado\u201d ou \u201cpampa serrano\u201d. Assim como tamb\u00e9m pertencem a um \u201cpampa alto\u201d, por\u00e9m paisagisticamente distinto, os que habitam as terras elevadas no bordo oeste do Pampa argentino, mais pr\u00f3ximo dos Andes.<\/p>\n<p>Visitar o lugar do outro, do vizinho, do estrangeiro long\u00ednquo, \u00e9 sempre um exerc\u00edcio cognitivo e cultural que ajuda a descobrir a pr\u00f3pria paisagem para al\u00e9m do h\u00e1bito que cegamente vamos mantendo. Do mesmo modo, quando outras pessoas que n\u00e3o moram onde vivemos v\u00eam descrever \u201cnosso lugar\u201d, aprendemos a ver a terra pelos olhos daqueles que n\u00e3o est\u00e3o a ela habituados, isto \u00e9, embebidos em uma esp\u00e9cie de cego encantamento.<\/p>\n<p>O h\u00e1bito, por ser muito afei\u00e7oado ao lugar, n\u00e3o permite que vejamos a paisagem a partir de outras perspectivas ou pontos de vista que n\u00e3o sejam \u201co nosso\u201d, quer dizer, de nossa identidade cultural aderida ao territ\u00f3rio. Por isso, as narrativas de viajantes sempre foram um g\u00eanero liter\u00e1rio de muito sucesso em todas as \u00e9pocas. A come\u00e7ar pelas mais antigas, como as <em>Historias <\/em>do grego Her\u00f3doto, o \u201cpai da Hist\u00f3ria\u201d, que no s\u00e9culo V a.C. descreveu no livro II o mundo eg\u00edpcio com horror e fasc\u00ednio e nos fez ver que cultura, etnografia e hist\u00f3ria pertencem ao lugar. Ou as do veneziano Marco Polo, que narrou no livro <em>Il Milione<\/em> a viagem ao ent\u00e3o estranho mundo oriental no s\u00e9culo XIV. Ou as consagradoras descri\u00e7\u00f5es dos naturalistas rom\u00e2nticos do s\u00e9culo XIX, em que se incluem as de ilustres s\u00e1bios que visitaram o Rio Grande do Sul, como Auguste Saint-Hilaire, Aim\u00e9 Bonpland, Friedrich Sellow, entre outros.<\/p>\n<p>O trabalho de naturalistas e viajantes constitui fonte de conhecimento de nossa paisagem a partir de outras perspectivas. Mais al\u00e9m, s\u00e3o tamb\u00e9m uma mem\u00f3ria das mudan\u00e7as paisag\u00edsticas que ocorreram desde \u00e9pocas em que os \u00fanicos instrumentos de registro eram a escrita e o desenho em cadernetas de campo. Os trabalhos poderiam ser acompanhados de coleta de esp\u00e9cimes vegetais, animais e minerais, bem como de belas aquarelas. No s\u00e9culo XX, principalmente a partir da consolida\u00e7\u00e3o dos cursos universit\u00e1rios de Hist\u00f3ria Natural nos anos 1950, os relatos de viagem que integravam v\u00e1rias modalidades disciplinares foram perdendo terreno, e o g\u00eanero quase desapareceu.<\/p>\n<p>Por isso, a publica\u00e7\u00e3o desta obra do fot\u00f3grafo Z\u00e9 Paiva \u00e9 motivo de grande e estupenda alegria. Utilizando-se de recursos modernos, do arsenal de equipamentos fotogr\u00e1ficos e adequada log\u00edstica, brinda-nos com uma incurs\u00e3o pela paisagem ga\u00facha que recupera a ideia dos percursos de uma viagem naturalista. Em vez de longos textos, Paiva apresenta uma obra numa linguagem visual pr\u00f3pria da contemporaneidade. Mas suas fotografias n\u00e3o s\u00e3o a busca do \u00f3bvio, de imagens j\u00e1 muito difundidas em cart\u00f5es-postais. Longe disso, o autor apresenta sequ\u00eancias inseridas dentro de incurs\u00f5es pela paisagem do Escudo Sul-Rio-Grandense, Planalto Meridional, Depress\u00e3o Perif\u00e9rica e Plan\u00edcie Costeira. Os percursos, por sua vez, s\u00e3o localizados dentro da diversidade de paisagens que comp\u00f5em as ecorregi\u00f5es ga\u00fachas.<\/p>\n<p>Assim, o leitor poder\u00e1 acompanhar o esp\u00edrito de aventura, de busca, de investiga\u00e7\u00e3o de um amplo espectro de temas que conformam o DNA de uma paisagem. Dos elementos rochosos, vegetais, animais, capturados em detalhes de rara composi\u00e7\u00e3o. Do conjunto paisag\u00edstico denotado pelas formas do relevo, nuvens e cores do c\u00e9u. De express\u00f5es culturais de habitantes de regi\u00f5es distantes, ermas, onde se fabrica a simbiose dial\u00e9tica entre cultura e paisagem. S\u00e3o flagrantes fotogr\u00e1ficos que anunciam nossa condi\u00e7\u00e3o neste mundo: de espectadores e, tamb\u00e9m e cada vez mais, de modificadores da paisagem.<\/p>\n<p>A incurs\u00e3o de Z\u00e9 Paiva \u00e9 uma busca instigante da natureza rec\u00f4ndita, aquela que ainda est\u00e1 de alguma forma guardada em parques e \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o. \u00c9 um modo sutil de anunciar o pouco que resta e o tanto que perdemos ou que ainda podemos perder. Por ser fruto de um viajante que segue os passos da cogni\u00e7\u00e3o naturalista, a obra tem perspectiva, tem posi\u00e7\u00e3o: a de mostrar em cada flagrante como a natureza \u00e9 bela e diversa na sua pr\u00f3pria naturalidade, isto \u00e9, para al\u00e9m dos clich\u00eas habituais que porventura aprisionam as m\u00faltiplas paisagens de nosso Estado.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O\u00a0 livro Expedi\u00e7\u00e3o Natureza Ga\u00facha estar\u00e1 na Biblioteca do F\u00f3rum Internacional de Livros de Autor, dentro do 5\u00ba FestFotoPoa, que acontece de 6 de abril a 1\u00ba de maio de 2011. 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