{"id":335,"date":"2005-08-18T13:57:06","date_gmt":"2005-08-18T16:57:06","guid":{"rendered":"http:\/\/zepaiva.wordpress.com\/?p=335"},"modified":"2005-08-18T13:57:06","modified_gmt":"2005-08-18T16:57:06","slug":"lapis-do-olho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/zepaiva.com\/en\/lapis-do-olho\/","title":{"rendered":"L\u00e1pis do olho"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align:right;\">Por: F\u00e1bio Br\u00fcggemann<\/p>\n<p>Leia na \u00edntegra o maravilhoso pref\u00e1cio do escritor e editor F\u00e1bio Br\u00fcggemann para o livro Expedi\u00e7\u00e3o Natureza &#8211; Santa Catarina.<\/p>\n<figure id=\"attachment_471\" aria-describedby=\"caption-attachment-471\" style=\"width: 489px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/zepaiva.com\/wp-content\/uploads\/2005\/08\/lapis-olho-1.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-471\" title=\"lapis-olho-1\" src=\"http:\/\/zepaiva.com\/wp-content\/uploads\/2005\/08\/lapis-olho-1.jpg\" alt=\"\" width=\"489\" height=\"322\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-471\" class=\"wp-caption-text\">Talha-mar &quot; Rinchops nigra &quot;, voando sobre a Lagoa da Concei\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>O l\u00e1pis do olho<\/strong><\/p>\n<p>Ao ver o material bruto que resultou na limpidez deste \u00e1lbum, a primeira indaga\u00e7\u00e3o que me surgiu foi: por que um sujeito resolve sair de casa, carregar pesados equipamentos, entrar no meio do mato, subir montanhas e escorregar no limo dos riachos para fotografar a natureza? Ao tentar respond\u00ea-la \u2013 se \u00e9 que h\u00e1 resposta adequada e \u00fanica \u2013 pensei nas imagens (que tamb\u00e9m s\u00f3 as vi em fotografia) dos desenhos rupestres feitos numa \u00e9poca em que o homem ainda desconhecia a palavra arte, porque n\u00e3o precisava de seu conceito. As paredes da caverna, de alguma forma, eram paredes da pr\u00f3pria casa.<\/p>\n<p>Avan\u00e7o alguns s\u00e9culos na hist\u00f3ria e penso no escritor Hermann Hesse, quando descreveu suas caminhadas pelo bosque pr\u00f3ximo \u00e0 sua cabana, e nas reflex\u00f5es do fil\u00f3sofo norte-americano Henri Thoreau, quando refugiou-se no lago Walden para ficar junto \u00e0 natureza e descrev\u00ea-la. Ser\u00e1 que a necessidade destes escritores n\u00e3o foi a mesma dos homens na caverna e, tamb\u00e9m, aquela que faz um sujeito sair de casa para fotografar a natureza?<\/p>\n<p>Os homens que pintavam cavernas grosso modo levavam a representa\u00e7\u00e3o do mundo para dentro de suas casas. Fotografar a natureza talvez tenha igual sentido. Mesmo assim, por que essa gente precisa tanto trazer para dentro de casa uma representa\u00e7\u00e3o do que existe fora dela? Ser\u00e1 que \u00e9 para confirmar a apatia dos homens de Plat\u00e3o, que apenas observavam a sombra do mundo de dentro da caverna? Ser\u00e1 para mostrar sua capacidade de representar o mundo? Ser\u00e1 para dizer que aquela por\u00e7\u00e3o representada, daquele ponto de vista, apenas aquele sujeito a v\u00ea? Ou ser\u00e1, ainda, movido por um desejo comunit\u00e1rio, para preservar um instant\u00e2neo da natureza e mostrar ao futuro que aquilo um dia existiu?<\/p>\n<p>De qualquer forma, h\u00e1 uma ilus\u00e3o nesse desejo, pois \u00e9 imposs\u00edvel guardar a natureza. O que se guarda \u00e9 apenas uma representa\u00e7\u00e3o dela. Presumo, diante destas quest\u00f5es, que o ser humano precisa n\u00e3o apenas olhar diretamente para a natureza, ou viv\u00ea-la intensamente, mas tamb\u00e9m olhar para uma representa\u00e7\u00e3o dela, com a inten\u00e7\u00e3o, talvez \u2013 como pensava Arist\u00f3teles \u2013, de melhor conhec\u00ea-la.<\/p>\n<p>O fot\u00f3grafo Z\u00e9 Paiva \u2013 ciente de que a fotografia da natureza na qual ele caminhou e que registrou n\u00e3o \u00e9 a verdade \u2013, de todas as hip\u00f3teses acima apontadas, fotografa para preservar. Estando diante de rios, lagos, \u00e1rvores quase fabulares (como a arauc\u00e1ria), p\u00e1ssaros, pequenos insetos, bichos e plantas catalogadas como \u201cem vias de extin\u00e7\u00e3o\u201d, cachoeiras, homens e mulheres e tamb\u00e9m da beleza e da destrui\u00e7\u00e3o deixada por estes homens e mulheres, Paiva tem a mesma vontade de cientistas como Fritz M\u00fcller, Fritz Plaumann e do padre Raulino Reitz que, gra\u00e7as a uma obstina\u00e7\u00e3o, mesmo que n\u00e3o tenham usado a fotografia, registraram para o futuro aquilo que viram.<\/p>\n<p>E \u00e9 curioso que um dos inventores da fotografia, o ingl\u00eas William Fox Talbot, tenha chamado a rec\u00e9m inven\u00e7\u00e3o de \u201cO l\u00e1pis da natureza\u201d. Passado todo este tempo, penso numa vers\u00e3o shopenhauriana, para supor que a fotografia \u00e9 o l\u00e1pis do olho, pois s\u00f3 se v\u00ea o que o olho quer, n\u00e3o o que a natureza pretensamente imp\u00f5e. A fotografia de uma lagoa, como as muitas que Z\u00e9 Paiva fez, ser\u00e1 sempre vista de formas distintas se feita por diferentes fot\u00f3grafos.<\/p>\n<p>Ainda nos prim\u00f3rdios da fotografia, Albert Bisbee, criador, em 1853, de um manual de daguerreotipia, dizia que \u201cos objetos delineiam-se a si mesmos, transparecendo, assim, a verdade\u201d. Hoje, esta vis\u00e3o de fotografia como verdade, ainda mais com a inven\u00e7\u00e3o da tecnologia digital, n\u00e3o se sustenta mais, pois ela n\u00e3o \u00e9 a verdade e, em alguns casos, nem mesmo \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o da verdade. A fotografia \u00e9 um indicador, um modo de dizer que a imagem de uma floresta n\u00e3o \u00e9 apenas uma floresta, mas o que pode ter sido dela, al\u00e9m de outra indica\u00e7\u00e3o: a de que em um determinado momento hist\u00f3rico \u2013 mesmo que tenha passado apenas um segundo \u2013 algu\u00e9m construiu uma imagem. Neste caso, um fot\u00f3grafo.<\/p>\n<p>Talvez, por tudo isso, as fotografias ainda precisem de legenda, porque n\u00e3o basta olharmos a imagem de um bugio, como aquele que Z\u00e9 Paiva fotografou, porque ainda restar\u00e3o perguntas como: onde estava o bicho? Qual o nome do lugar? Posso ir l\u00e1? Tinha mais destes? Se fotografar \u00e9 chamar a aten\u00e7\u00e3o para algo, ver uma fotografia \u00e9 fazer perguntas a respeito deste \u201calgo\u201d.<\/p>\n<p>A fotografia \u00e9, segundo Joan Fontcuberta, autor do livro El beso de Judas, fotografia y verdad, \u201cuma fic\u00e7\u00e3o que se apresenta como verdadeira\u201d. E dado esse car\u00e1ter inevit\u00e1vel de fic\u00e7\u00e3o, resta, ainda, continua o autor,  o \u201ccontrole exercido pelo fot\u00f3grafo para impor uma dire\u00e7\u00e3o \u00e9tica a sua fic\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Z\u00e9 Paiva, al\u00e9m de construir estas representa\u00e7\u00f5es da natureza em bel\u00edssimos quadros e ser, como escreveu o poeta e ensa\u00edsta P\u00e9ricles Prade, \u201cum ca\u00e7ador de imagens ed\u00eanicas\u201d, tem este controle e imp\u00f5e, decididamente, uma dire\u00e7\u00e3o \u00e9tica \u00e0s suas fic\u00e7\u00f5es. Ele, ao nos mostrar belos ind\u00edcios da exist\u00eancia da natureza, prop\u00f5e tamb\u00e9m que seja preservada. N\u00e3o apenas em nossa mem\u00f3ria, ou para levarmos para dentro de casa, mas no espa\u00e7o espec\u00edfico de onde ele a tirou.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m se diz \u201ctirar\u201d para fotografar. Paiva tira, mas n\u00e3o trai aquilo que fotografa. Ele nos empresta seu olhar, mas a imagem que queremos ver mesmo ser\u00e1 delineada em nosso olho, que processar\u00e1, assim, a id\u00e9ia de preserva\u00e7\u00e3o, de beleza, de conceito de arte, de encantamento, mas tamb\u00e9m de desgosto por indicar ainda id\u00e9ias de destrui\u00e7\u00e3o de uma realidade que, talvez, em um futuro pr\u00f3ximo, n\u00e3o sirva mais de modelo.<\/p>\n<p>Este \u00e1lbum \u00e9 tamb\u00e9m um aviso.<\/p>\n<p>F\u00e1bio Br\u00fcggemann<br \/>\nEditor, escritor e jornalista<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: F\u00e1bio Br\u00fcggemann Leia na \u00edntegra o maravilhoso pref\u00e1cio do escritor e editor F\u00e1bio Br\u00fcggemann para o livro Expedi\u00e7\u00e3o Natureza &#8211; Santa Catarina. 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